Estados Unidos, Rússia e China estão investindo fortemente em reatores modulares pequenos (SMRs, na sigla em inglês) como uma estratégia essencial para acelerar a transição para a energia limpa, combater as mudanças climáticas e garantir a segurança energética global. Com menor custo e tempo de construção em comparação aos reatores nucleares tradicionais, os SMRs têm se consolidado como uma das principais apostas para o futuro da matriz energética mundial.
Um dos exemplos mais simbólicos dessa nova era nuclear está ancorado na costa da Sibéria: a Akademik Lomonosov, primeira usina nuclear flutuante do mundo, utiliza SMRs para abastecer cerca de 200 mil pessoas. A mesma tecnologia também move submarinos americanos em missões estratégicas. Esses reatores compactos vêm sendo vistos como peças-chave para democratizar o acesso à energia nuclear, especialmente em regiões onde os grandes reatores são inviáveis.
A promessa dos SMRs é atrativa: por serem menores e mais flexíveis, podem ser montados em locais remotos ou em terrenos com restrições, como substitutos de usinas a carvão desativadas. Além disso, eles oferecem uma alternativa firme às fontes renováveis intermitentes, como a energia solar e eólica.
Disputa geopolítica pelo domínio do mercado
A corrida pelo domínio dessa tecnologia tornou-se uma disputa geopolítica estratégica. Os Estados Unidos têm investido bilhões de dólares em pesquisa e parcerias internacionais, buscando recuperar espaço após perder a dianteira em energias renováveis para a China. Enquanto isso, a China já possui um SMR terrestre em operação e lidera na construção de novos reatores nucleares, enquanto a Rússia mantém a liderança no fornecimento do combustível usado nos SMRs — o urânio HALEU, enriquecido em níveis mais altos que os combustíveis convencionais.
Apesar dos avanços, os EUA ainda enfrentam desafios. O projeto da NuScale, pioneiro na aprovação regulatória de SMRs no país, foi descontinuado em 2023 devido ao aumento de custos. Isso lançou dúvidas sobre a viabilidade econômica do modelo, mesmo com apoio governamental e promessas de exportação.
Aposta diplomática e estratégica dos EUA
Na arena internacional, os EUA têm redobrado os esforços diplomáticos para impulsionar seus SMRs. O governo lançou o programa FIRST, que destinou US$ 72 milhões a ações de apoio técnico e estratégico a países interessados. Além disso, bancos públicos americanos prometeram mais de US$ 4 bilhões para financiar projetos como o de dois reatores SMR na Polônia, desenhados pela GE Hitachi Nuclear Energy.
A estratégia é clara: construir alianças duradouras com países em busca de alternativas ao gás natural russo ou à influência tecnológica chinesa. Na COP28, os EUA lideraram uma coalizão internacional que se comprometeu a triplicar a capacidade nuclear global, reforçando o compromisso com a tecnologia SMR.
Obstáculos e futuro da tecnologia
Apesar do entusiasmo, analistas alertam que a popularização dos SMRs exigirá tempo e enfrentará obstáculos. A produção de combustível ainda depende da Rússia, e a competição com fontes fósseis baratas nos EUA pressiona a competitividade da nova tecnologia. Além disso, há o desafio de provar a viabilidade econômica e a segurança operacional dos SMRs em larga escala.
Mesmo assim, a Agência Internacional de Energia (AIE) vê os SMRs como essenciais para dobrar a capacidade nuclear até 2050, objetivo considerado crucial para conter o avanço das emissões de carbono. Segundo a organização, o "renascimento nuclear" já está em andamento, com novos reatores entrando em operação na Ásia e Europa e reativações de usinas no Japão.
A próxima década será decisiva para saber se os SMRs consolidarão sua promessa como protagonistas da transição energética global. Se bem-sucedidos, poderão não apenas acelerar a descarbonização do planeta, mas também redesenhar os mapas da influência geopolítica e da segurança energética no século XXI.
Fonte: CNN Brasil










